
Era um dia bom para sonhar.
Para começar, o céu era bastante antagônico; de um lado a limpidez azul etéreo e do outro a escuridõ e sombras das nuvens carregadas.
A Excessiva ia para o trabalho quando percebeu aquele céu em luta, numa batalha para definir quem dominaria aquele dia dos namorados.
Aí ela pensou que seria interessante presenciar o momento exato em que a tempestade alcançaria a pacificidade azul. Deitou no gramado de uma praça, alheia a alguns olhares curiosos, e fitoun o céu. As sacolas que carregava consigo se abriram e alguns de seus pertences deram as caras.
- Algum problema moça?
Era uma menina pequenina que para com seus grandes olhos verdes a poucos centímetros dos dela.
- Problema algum. - a Excessiva não pode evitar um sorriso por causa daquela invasão inocente - Só estou sonhando um pouco.
- Que ótimo! - a meninita bateu palmas - Minha vó disse que as pessoas correm tanto hoje em dia que até se esquecem de sonhar. Disse ainda que algumas pessoas nem sabem como é sonhar! Fico contente em ver que a vovó estava enganada.
- Mas a sua avó tem razão, menininha.
- Tinha. Ela está no céu agora, sonhando.
A menina baixou os olhinhos cheios de lágrimas e sentou ao lado da estranh.
- No entanto, - disse a Excessiva - aqui estamos nós. Se sonharmos juntas, talvez as pessoas ao redor lembrem de como se faz e voltem a querer sonhar.
- Você acha? - os olhos verdes brilharam - Posso sonhar junto com você?
A Excessiva sentiu que a menina deitava ao seu lado, de braços e pernas espaçadas. Ambas voltaram os olhares para o céu. As nuvens negras ainda não haviam coberto todo o céu claro.
De repente a Excessiva refletiu sobre si mesma, em como sonhava pouco e em como era iludida ao sonhar. Refletiu mais um pouco no próprio realismo exacerbado, que de tão veloz era pessimismo.
Então pensou em Deus e em como o ateísmo estava ligado a este realismo cruel. Pensou em Gaia, a energia da Terra, e na importancia desmedida que o Homem dava a si mesmo. Esquecendo de que precisa do outro para viver. Prova disso era o fato de que ninguem seria inteiramente feliz sozinho.
- Ninguém é inteiramente feliz sozinho. - disse - É como ser algo que não é nada, que não serve pra nada.
- É como as letras do alfabeto. - sugeriu a menina - A letra "A", por exemplo, só ganha sentido digno quando acompanhada de outras letras.
Sim. - a Excessiva teve de concordar. - O alfabeto não existiria se só houvesse a letra "A".
- Uhum. Pode notar qure a maior parte das palavras têm duas ou mais letras, nunca uma só. Assim somos nós. Não temos significado algum se não tivermos importância para outrém. Sonha loucamente!
- Uhum... - foi a vez da Excessiva murmurar.
Acho que o sonho de todo mundo é ser atropelado pela pessoa mais incrível do mundo; alguém esbelto, rico e que o ame incondicionalmente.
- Ou esbarrar "acidentalmente" com esse alguém. - concluiu a Excessiva - Seria bom.
A Excessiva olhou despreocupadamente para o relógio. Estava atrasada, claro. E o céu azul conseguiu afastar as nuvens negras.
- Seria justo - disse a menininha.
Texto: L. J. Becker
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